Chegou a hora da verdade para o governo do presidente Lula. Há seis anos esse governo dá-se crédito pelo trabalho alheio, comemorando como suas conquistas a estabilidade da economia nacional num ambiente de crescimento vertiginoso da economia mundial. Quando Lula assumiu, encontrou o Brasil, pela primeira vez em décadas, bem posicionado para tirar partido do bom momento do mundo.
E partido tiramos: o alto preço das 'commodities' beneficiou nossas exportações; a baixa mundial do dólar segurou a inflação, e amenizou a alta do petróleo; a alta produtividade do mundo e a competição vigorosa das economias asiáticas pressionaram salários para baixo, segurando ainda mais qualquer impulso inflacionário, apesar do crescimento econômico. Crescemos e, se acreditarmos em estatísticas estapafúrdias, viramos um país de classe média. É o único país do mundo aonde classe média se define por dois salários mínimos, mas vá lá, deixemos os números contar a verdade deles.
Mas o que não fizemos foi o dever de casa: não investimos em educação ou infra-estrutura; não reformamos nossos impostos; e não enxugamos a máquina do governo. Alías, longe disso, assistimos a uma das maiores expansões do aparelho de governo jamais vista nesse país. Para piorar, queimamos alguns bilhões de dólares mantendo o dólar mais em baixa do que deveríamos.
Agora a festa mundial acabou, o porre global virou ressaca, e está na hora de pagar a conta. Não adianta reclamar do banqueiro ganancioso (é como bêbado culpar o barman pelo porre), e não adianta achar que a conta é exatamente 700 bilhões de dólares, pagas exclusivamente pelo contribuinte americano.
Não, a conta é de todos nós, e a cobrança, imediata. A única tênue esperança é no instinto do presidente. O mesmo instinto que o levou a descartar o terceiro mandato o levou a entender, ainda em tempo, que o mantra da "ilha de tranqüilidade" iria afundar o governo dele como afundou o Brasil após o milagre. Vamos encarar a crise de frente, como gente grande. Quem sabe esse governo finalmente não faz algo que mereça crédito próprio?

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